Enquanto o prefeito Eduardo Braide (PSD) tenta sustentar publicamente que o atraso no repasse de verbas ao Instituto Maranhense de Oncologia Aldenora Bello é uma mera questão de “ajuste técnico”, documentos oficiais revelam uma realidade muito mais grave: uma estratégia deliberada de asfixia orçamentária que ignora prazos legais, ordens do Legislativo e a urgência da saúde oncológica infantil.
Em declarações recentes ao portal Atual7, Braide apostou na desinformação para justificar o represamento de recursos destinados ao hospital e à Apae. Com uma narrativa que beira o deboche:
“O que foi divulgado pelo próprios vereadores, que inclusive foram colocados outdoors com a minha pessoa na cidade, é que os vereadores estavam cobrando uma liberação de repasse para a construção do hospital pediátrico do Aldenora Bello. Acontece que quando os vereadores destinaram as emendas, destinaram para custeio, para manter o hospital. Aí a pergunta que qualquer pessoa tem que se fazer é: ‘Como é que você vai botar dinheiro para manter uma coisa que não existe?’. Outro ponto é que as destinações foram feitas praticamente em dezembro do ano passado e nós temos o ano inteiro [de 2026] para tramitar o processo e pagar”, disse.
O “xeque-mate” dos documentos: a farsa do custeio
Os fatos, no entanto, desmentem o prefeito ponto por ponto, conforme divulgou o Atual 7. Diferente da versão oficial, os Ofícios nº 075/2025 e nº 076/2025, do vereador Aldir Júnior, protocolados em 19 de novembro de 2025, são explícitos no campo assunto:
“CONSTRUÇÃO DO HOSPITAL ONCOLÓGICO DA CRIANÇA”
Da mesma forma, a Emenda nº 27/2025, da vereadora Professora Magnólia, foi protocolada ainda mais cedo, em 14 de outubro de 2025. O documento especifica que os R$ 500 mil destinam-se a ações voltadas à construção da unidade. Braide ignora — ou finge — que a classificação “custeio” é apenas a modalidade técnica exigida para repasses a instituições filantrópicas. Usar isso como pretexto para travar a obra é uma manobra semântica para mascarar a falta de vontade política.
Sequestro do orçamento: 150 dias de espera
A tese de que os recursos chegaram “praticamente em dezembro” é outra falácia desmontada pelas datas de protocolo:
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Outubro de 2025: Emendas de Professora Magnólia e Clara Gomes.
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Novembro de 2025: Ofícios de Aldir Júnior, Raimundo Penha e Thay Evangelista.
Ao todo, 14 vereadores — incluindo membros da própria base de apoio do prefeito — uniram-se em um acordo suprapartidário para viabilizar a ala oncopediátrica. Ao todo, R$ 12 milhões foram indicados por parlamentares como Marlon Botão, Thyago Freitas, Daniel Oliveira e outros. Entretanto, enquanto nomes como Wendell Martins (R$ 1,1 mi) e Cléber Verde Filho (R$ 1,7 mi) aguardam o básico empenho, o prefeito utiliza o tempo como arma política.
O abismo de prioridades: samba vs. câncer
A comparação é inevitável e vergonhosa. Enquanto Braide alega que “há tempo para pagar” a saúde, a gestão mostrou agilidade recorde para a festa. Em fevereiro, a prefeitura obteve autorização judicial “relâmpago” para injetar R$ 22,2 milhões extras no Carnaval — valor 3,5 vezes superior ao planejado originalmente.
A gestão que libera milhões para shows em questão de horas é a mesma que deixa emendas de saúde mofando nas gavetas por mais de 150 dias por birra com os vereadores da capital.
O silêncio cruel sobre a Apae
Se para o Aldenora Bello existe uma narrativa técnica distorcida, para a Apae de São Luís o que impera é o silêncio absoluto. Dos R$ 4,3 milhões destinados pelos vereadores à instituição, R$ 3 milhões sequer tiveram processo aberto na Prefeitura. Braide não explica por que a entidade que atende milhares de pessoas com deficiência foi sumariamente excluída das prioridades da sua caneta.

